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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

ARTIGO "A CRISE DA VERGONHA NA CARA (PRIMEIRA PARTE) - CORONEL PM REF NELSON HERRERA RIBEIRO

Prezados leitores, transcrevemos texto de autoria do Coronel PM Ref Nelson HERRERA Ribeiro:

Capistrano de Abreu

"A  CRISE  DA  VERGONHA  NA  CARA   (Primeira parte)

Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos da Constituição por um artigo único: todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara.”
Sinto-me frustrado, porque minha limitação intelectual não me permitiu forjar tão brilhante citação. Seu autor foi CAPISTRANO DE ABREU (1853-1927), notável historiador brasileiro.
Nos idos de 1984, no então Governo Brizola, ainda major da ativa, motivado por essa frase e com incontida revolta ante o deprimente quadro que então vivia a PMERJ, fiz publicar artigo de página inteira na Tribuna da Imprensa, no qual discorria meu ponto de vista sobre as nossas intrínsecas mazelas e o jogo sujo dos governantes. A seguir, incrementei a “carreira jornalística”, voltando a artigos semelhantes no Jornal do Brasil e O Globo, transformando-me, sem querer, em pioneiro na luta pública em defesa dos policiais militares no Rio de Janeiro. Ilustre pioneiro desconhecido.
Criticava, sobretudo, as péssimas condições de trabalho: armamentos e equipamentos deficientes, desumanas escalas de serviço, caótica assistência médico-social, precário sistema de previdência, baixa remuneração. Ou seja, muitos deveres e poucos direitos. Curiosamente, decorridos mais de 30 anos, nada mudou; ao contrário, os problemas agravaram-se.
Recordo-me ter afirmado no primeiro texto: Pairando sobre tudo isso, resta o mal maior: a crise da vergonha na cara. A crítica mais branda foi que se tratava de “uma metralhadora giratória”. Claro que, além da decorrente prisão disciplinar, fiquei em disponibilidade por cerca de 3 anos, tendo ainda suportado 10 anos no mesmo posto, apenas sendo promovido a tenente-coronel, por antiguidade, em 1991.
Recentemente, em 2012, a crise interna corporis reacendeu-se, levada aos ventos do movimento dos bravos bombeiros militares. Contudo havia novo e temerário componente: o açodamento de um “estado de greve”, incompatível com os pilares de toda instituição militar no mundo – disciplina e hierarquia.
Já coronel reformado, vendo a luta muito digna, mas solitária, do Coronel PAUL, preocupei-me com a efervescente crise, e resolvi quebrar o silêncio que eu mesmo me havia imposto. Além de comparecer a reuniões de classe, tentei contribuir, já com certa experiência de vida, redigindo o artigo “Mensagem”, que foi publicado neste blog, por especial deferência. Recebi, entretanto, dezenas de comentários em reprovação, tendo sido aconselhado a “não tirar o pijama”, criticado porque “queria aparecer”, e outras aleivosias. Até fui acusado de “agente infiltrado do Cabral”, sendo esta a ofensa maior. Mas houve também poucos comentários elogiosos.
Então decidi impor-me novo silêncio: o tempo é o senhor da razão. Entretanto peço vênia para aqui transcrever importante trecho do referido artigo:
Somos históricas corporações, dotadas de brava gente, instituições permanentes, que não podem ser aviltadas por aventureiros inquilinos do Poder. E mais especificamente: em ambas as nossas reuniões, diretriz alguma foi fixada para ser posta em prática após a reação governamental; vale dizer, traçar o nosso Plano B. O quadro dessa reação já foi desmascarado na Bahia: repelir o movimento grevista (não permitir que “um pequeno grupo, de forma irresponsável, cometa atos de desordem para assustar nossa população”); prover a substituição imediata do policiamento pelo Exército e pela Força Nacional (no intuito de restaurar a sensação de segurança, mas poderão combater fogo?); prender seus líderes (escolhidos pelo próprio governo); obter o imediato apoio da Justiça estadual (decretação da ilegalidade da greve, entabulando-se expulsões de praças e violando prerrogativas estatutárias inclusive de oficiais, com ameaça de recolhimento dos presos PM a presídios federais); e conceder mais outro ridículo reajuste (apregoado pela mídia como substancial e segundo a capacidade financeira do Estado). A crise, dessa forma, será desviada em função “desses vândalos”, alegando-se que a PM, “centenária milícia de bravos e defensora da paz, não pode permitir se transformar num instrumento de intimidação e desordem” etc., etc. Basta ver o discurso do governador petista da Bahia. Soa bem aos ouvidos da população e legitima a violenta repressão. O cidadão comum, contribuinte e eleitor, não vai apaixonar-se por nosso movimento. A ele só interessa a segurança pública provida. Então claro está que o movimento grevista só favorecerá o governo. Será mais outro componente para seu jogo sujo. Os mais antigos já viram esse filme em preto e branco, agora já masterizado em novas cores por computador.
As expressões transcritas entre aspas foram ditas por JACQUES WAGNER, então governador petista da Bahia, que, depois, como Ministro-Chefe da Casa Civil, foi defenestrado do governo, junto à “organização criminosa” denunciada no governo lulopetista, sob a batuta de JOSÉ DIRCEU e o “desconhecimento” de LULA. Quem viveu acompanhou os acontecimentos, mas parece até que eu era adivinho.
Errei apenas por não ter considerado a incontida sanha do desequilibrado governador SÉRGIO CABRAL, satisfeita por seus sabujos de plantão (entre os quais coronéis BM e PM), para praticar cruel, suja e desmedida vingança contra os bravos bombeiros e policiais militares. Ocorreram meros protestos da Comissão de Direitos Humanos da ALERJ e da OAB/RJ e houve algumas notas de desagravo por associações de classe. No entanto, nada foi cobrado contra as autoridades algozes, nada foi feito pelos Comandos, surgindo adiante uma ridícula “anistia”. Ficaram anistiados por crimes que não cometeram. Aqueles heróis de Bangu 1 deveriam ter sido promovidos e ganhado medalhas por bravura, além de público e formal pedido de desculpas. Preferiu-se varrer a crise para debaixo do tapete. Deu no que deu.
Atualmente, porém, constatamos algo muito pior: a crônica complacência dos coronéis ativos e inativos, salvo honrosas exceções, como se todos alheios à dura realidade do entorno, parecendo ora aparvalhados e inoperantes, ora agarrados a suas vantagens de comando, tornando-se cúmplices dos abusos dos governantes.
Hoje se vê nosso alegre ex-governador CABRAL e sua deslumbrada esposa sob prisão preventiva, acusados de corrupção. Ainda assim, deixou eleito seu candidato PEZÃO, o que, em suma, nada mais significa que a continuidade do seu “desgoverno”.
Hoje se vê o Batalhão de Polícia de Choque (BPChq) empregado de forma fracionada, atuando em missões específicas de policiamento ostensivo, incluindo   esporádicos apoios em socorro a esse patético Projeto UPP, nascido da mente confusa de JOSÉ MARIANO BELTRAME, Delegado (?) de Polícia Federal, todo-poderoso Secretário de Segurança, com claro propósito de vitrine eleitoreira para CABRAL, mediante ostensivo apoio da mídia comprometida. Aliás, quem pretender analisar o tema, leia o livro “UPP – Uma farsa eleitoral”, de autoria do Coronel PAUL, o qual tive a honra de prefaciar. Mais parece bem elaborado Estudo de Estado-Maior.
Nos idos de 1968, no então Estado da Guanabara, num período tomado por continuadas manifestações nas ruas, precedentes da decretação do famigerado AI-5, quando havia embates sangrentos (haja vista os equipamentos inadequados da PM: leve uniforme de brim, capacete de fibra, frágeis escudo e cassetete), e ainda, por ordens militares superiores, com a tropa desarmada (!), tive a honra de servir, jovem 2º tenente, no então BM (Batalhão Motorizado). Depois denominado BPChq, ali também serviria já major, sendo a tropa treinada e empregada sob técnicas adequadas ao controle de distúrbios, missão precípua de toda Polícia de Choque em qualquer país. Penso que esse experimento profissional me assegura habilitação bastante para criticar o emprego de tropas de choque.
Essa deformação do BPChq também se deve a outra obscura iniciativa do não menos obscuro Delegado BELTRAME, reforçada por sua trágica administração e por seu completo despreparo de chefia e liderança. Mas referendada por nossa anuência.
Diante de tamanho caos, surgem-me vários questionamentos. Acho que não só a mim.
Como é possível, durante tanto tempo, o abissal silêncio dos coronéis da ativa, e sobretudo dos reformados, nós todos que, por dever de ofício, temos sobre os ombros a permanente obrigação de defesa da Polícia Militar?
Como é possível que nós, os policiais militares fluminenses, ameaçados até de mutilação de nossos direitos previdenciários, sem eficaz posicionamento público do Comando, termos sido salvos por obra e graça de valorosas atuações alheias, como a do Coronel Marco Antônio Badaró BIANCHINI, Comandante-geral da PM de Minas Gerais e integrante do CNCG-PM/CBM (Conselho Nacional dos Comandantes Gerais das Polícias Militares e Corpos de Bombeiros Militares) ?
Como é possível nossa Polícia de Choque, desestruturada, atuando desfigurada a esse ponto, para reprimir com atrabiliária violência as legítimas manifestações de servidores públicos, incluídos nossos irmãos bombeiros militares, policiais civis e agentes penitenciários?
Como é possível não termos força política necessária e suficiente –  com lídimos representantes de classe, destemidos, competentes, sem “rabo preso”, eleitos pela nossa união em torno de nomes previamente referendados –, para que se possa atuar politicamente, pelo bem comum, consoante os anseios das entidades de classe de oficiais e praças?
Como foi possível os autodenominados “Coronéis Barbonos” não terem sido apoiados, de forma monolítica, quando do histórico episódio de sua traumática  repressão, tendo o corrupto governador CABRAL, em tempo rapidíssimo, alterado até direitos estatutários, para abreviar-lhes a inatividade, mas já contando com o apoio dos demais oficiais, movidos ao sabor de interesses e cobiças pessoais?
Como foi possível que praças bombeiros e policiais militares da ativa, junto a oficiais superiores inativos, terem sido jogados nas masmorras de Bangu 1, incomunicáveis (inclusive sem acesso a advogados), rasgando-se as Constituições federal e estadual, o Código Penal Militar, os Estatutos dos Bombeiros Militares e dos Policiais Militares, mediante a alarmante cumplicidade da Justiça e a leniência do Ministério Público, mas, sobretudo, com o nosso silêncio?
Como é possível a estranha complacência de nossas associações de classe (a pouca representatividade que ainda temos, por força da vedação de nossos sindicatos), as quais deveriam estar unidas, oficiais e praças reformados discutindo, em paralelo ao Comando, os problemas comuns, exteriorizando anseios, encaminhando propostas e soluções, sob o direito constitucional de livre manifestação de pensamento?
Como é possível que, nem mesmo ante o insofismável quadro caótico, nossos coronéis, como chefes maiores, ainda não se interessem para iniciar a desconstrução dessa “cultura de autofagismo”, com base em mínimo amor corporativo, para exercitar suas obrigações de chefia e liderança?
São indagações que carecem de convincentes respostas.

Nelson HERRERA Ribeiro Cel PM Ref, advogado, professor."

Juntos Somos Fortes!

5 comentários:

  1. Bom dia!
    Coronel o senhor está corretíssimo. 😐

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  2. Bom dia!
    Coronel o senhor está corretíssimo. 😐

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  3. Quem ta preocupado com gratificação, com vtr com motorista a disposição, em sugar o estado em nome de uma compensação pelas aguras de uma profissão escolhida não ta nem aí. Essa é a realidade, e o apocalipse so gerará uma corrida ao meu pirão primeiro, infelizmente. E as geraçoes que cresceram vendo isso não farão diferente do que sempre viram, o que estar certo em sua reivindicação ser esmagado impiedosamente, não é coronel, o sr passou por isso. na verdade a pm faz isso com muitos, so reproduzimos esse mal.

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  4. Sabe o q nao entendo,cel paul?
    Como que os senhores coronéis da reserva não conseguem mobilizar seu amigos oficiais que estão na ativa.
    O sr e outros foram vetranos de muitos que hj estao no poder.

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  5. Prezado Cel PM Herrera: seu posicionamento sempre foi corajoso e alicerçado na verdade. Não há como refutar suas palavras. Em 2012 lembro-me de haver compartilhado algumas reuniões ao seu lado.
    Juntos Somos Fortes!

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